7 de set. de 2015

CARTA PARA MAMÃE

Oi mãe, espero que quando essa carta chegar a senhora esteja bem.
Eu não sei mais o que estou sentindo, não sei mais como está meu coração, não sei mais no que acredito, se aceito todas as coisas que me foram ensinadas e lidas. Eu já não sei mãezinha de muita coisa a muito tempo.
20150802_150727Sabe, eu nunca tive coragem de contar, muitas vezes achei que fosse loucura, eu não consigo mais lembrar de minha infância, somente o que me contam que eu imagino como aconteceu, mas se é verdade ou mentira não sei, algumas coisas passam como flashes em minha cabeça, outras eu nem sequer consigo imaginar, só me lembro das coisas que me aconteceram após o acidente, antes dele eu apaguei. Na terapia, contando o que me contavam, eu me lembrei do dia que a senhora quase morreu e chegou em casa toda machucada, e nesse dia eu tive uma dor que eu nunca imaginei que gostaria de sentir, mas hoje sei que essa dor é muito pior ainda quando se sente.
Eu ouvi tanta besteira sobre tanta coisa, me perdoe mãe, algumas eu cheguei a acreditar por um tempo, e outras eu neguei para mim mesma e eliminei de minha mente até agora. Me perdoe por ter acreditado, eu sei que a senhora me perdoou lá no hospital quando me disse que me amava muito, muito, muito, eu é que não estou conseguindo me perdoar. Tá muito difícil mãe.
Durante quase todo o seu funeral eu me segurei, todo mundo ficava me dizendo para ser forte porque Sonia e Léia iam precisar de mim, porque elas estavam sofrendo muito, mas ninguém me perguntou o que eu estava sentindo, e eu fiz a besteira de vir para casa e então a minha ficha caiu, a senhora não ia mais voltar. Eu me deitei para fazer Cecília dormir e acabei apagando por menos de 1 hora e a senhora veio me ver e disse que eu não tinha feito o que prometi, então eu acordei gritando e corri pro banheiro e a Andressa e o Jr vieram me socorrer, a senhora estava triste comigo, e mesmo eu sabendo disso, deixei o que prometi de lado para satisfazer a vontade dos outros e amenizar a dor deles, afinal foi me dito que a senhora não precisava mais de suas coisas. Me perdoe mãe, eu fui fraca, eu sou fraca, eu não lutei pela senhora, eu não consegui, mas eu te prometo que as outras promessas não vou deixar de cumprir, vou cuidar de Allany e de Cecília como a senhora me pediu.
CYMERA_20150502_220731Eu fui católica quando criança, fui evangélica, espírita, mas hoje eu não sei o que sou, naquele momento que fui me despedir da senhora que me tiraram de lá, eu acho que perdi tudo, me desliguei de tudo e todos, eu queria chorar pela senhora desde o momento que a vi sem vida naquele quarto de hospital e não pude porque desde o princípio, desde a hora que me deram a notícia me disseram que eu não podia chorar, que eu não podia gritar, que eu não podia fazer nada! Me destruíram por dentro mãe, mais do que eu já fui destruída por toda a minha vida, agora não sobrou nada e eu não tenho mais a senhora para me remendar, o que eu vou fazer? Quem vai agora me socorrer? Eu não quero mais ver ninguém, eu não posso mais, quem me mantinha viva era a senhora, quem me mantinha humana era a senhora e agora eu to numa escuridão que eu não sei o que fazer. Justo eu que sempre tive medo do escuro, agora me sinto mal na luz.
Eu vou cumprir a promessa de batizar Cecília na igreja católica e vou frequentar com ela, vou manter o seu costume de orar com ela no seu quarto todos os dias, mesmo que eu tenha que fazer outro altar, eu farei um mais lindo ainda, e vou criar minha filha com a mesma fé que a senhora tinha.
Agora só quero pedir a Deus que a receba em seus braços e que a senhora nunca mais sinta dor, porque agora não podem mais dizer que tudo foi fingimento, agora não haverá mais “chantagens” né mãezinha! Me perdoe porque um dia até eu acreditei e coloquei em dúvida, lembra? Nós conversamos muito sobre isso, eu até te disse que achava que eu morreria antes da senhora, porque seu exames diziam que a senhora estava bem, mas o seu coração e sua cabeça dizia que não, os sinais estavam claros, e nós, eu, não lutei pela senhora. Me perdoe mãe, eu pedi ajuda, mas não consegui, e eu não consegui ajuda nem pra mim mesma, mas eu tenho a terapia e a senhora não teve. Um dia, talvez, eu consiga me perdoar e tirar toda essa mágoa do meu coração, o tempo é o único que poderá me ajudar.
Lembra quando eu sonhei com a vó Cecília e ela me disse que minha filha era minha força e meu escudo no momento de tribulação que eu iria passar, pois é, eu achei que isso foi durante a gravidez e depois que Cecília nasceu, a minha depressão, mas hoje eu sei que esse dia é hoje, e que nada de ruim que me aconteceu em toda a minha vida, e só a senhora sabe que não foi pouca coisa, nada se compara com a dor que tenho em meu coração hoje.

Se existe mesmo vida após a morte (já que combinamos que viríamos contar como era e a senhora não apareceu ainda), um dia nos veremos. Espero que não seja logo, eu espero poder ser uma avó tão maravilhosa como a senhora e que meus netos e netas me amem tanto quanto seu netos e netas te amavam, Cecília ainda acha que a senhora vai voltar, e se existe vida após a morte espero mesmo que tenha a permissão um dia de poder vir nos visitar.
Mãezinha eu te amo muito, e vou pedir à Deus todos os dias para que sejas feliz onde estiver.
Fica com Deus. Cecília te manda beijos.
Sua filha Sandra
07/09/2015.
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